Os limites das negociações do clima
publicado em 30/06/2014

Para o mundo vencer a crise decorrente das mudanças climáticas, precisaremos de uma nova abordagem. Atualmente, as maiores potências encaram o assunto como uma oportunidade para negociações sobre quem reduzirá suas emissões de CO2(principalmente decorrentes do uso de carvão, petróleo e gás). Cada país aceita fazer pequenas "contribuições" para a redução das emissões, tentando induzir os outros países a fazer mais. Os EUA, por exemplo, vão "admitir" um pouco de redução de CO2 se a China fizer o mesmo.

 

Durante duas décadas ficamos presos a essa mentalidade minimalista e incremental, errônea em dois aspectos fundamentais. Em primeiro lugar, ela não está funcionando: as emissões de CO2 estão crescendo - e não caindo. A indústria petrolífera mundial está deitando e rolando - fracking, perfuração, exploração no Ártico, gaseificando carvão e construindo novas usinas produtoras de gás natural liquefeito (GNL). O mundo está aniquilando os sistemas de climatização e de produção de alimentos a um ritmo alucinante.

 

Em segundo lugar, a "descarbonização" do sistema energético é tecnologicamente complicada. O verdadeiro problema para os EUA não é a competição chinesa, é a complexidade de migrar uma economia que gera US$ 17,5 trilhões dos combustíveis fósseis para alternativas de baixo carbono. O problema da China não são os EUA, mas como eliminar a dependência da segunda maior economia do mundo do consumo arraigado de carvão. Na verdade, trata-se de problemas de engenharia, não de negociações.

 

A questão é como descarbonizar mantendo-se economicamente vigorosos. Negociadores envolvidos com a questão climática não podem dar respostas a essa questão, mas inovadores como Elon Musk, da Tesla, e cientistas como Klaus Lackner, da Universidade Columbia, podem.

 

A descarbonização do sistema energético mundial exige impedir que nossa vasta e crescente produção de eletricidade intensifique as emissões atmosféricas de CO2. Isso pressupõe também trocarmos nossas frotas de transporte por outras que não produzam carbono.

 

Gerar eletricidade com produção nula de carbono é factível. Energia de fontes solar e eólica já são capazes de proporcionar isso, mas não necessariamente quando e onde necessário. Necessitamos progressos em armazenamento para essas fontes de energia limpa.

 

Energia nuclear, outra fonte não geradora de carbono, também terá de desempenhar um grande papel no futuro, o que implica melhorar a confiança pública em sua segurança. Até mesmo os combustíveis fósseis podem produzir eletricidade sem liberação de carbono, se forem empregadas tecnologias para captura e armazenamento de carbono (CAC). Klaus Lackner é um líder mundial em pesquisa de novas estratégias de CAC.

 

A eletrificação dos transportes já foi viabilizada, e a Tesla, com os sofisticados veículos elétricos, está capturando a imaginação e o interesse do público. Elon Musk, ansioso por estimular o rápido desenvolvimento dos veículos, fez história, na semana passada, liberando as patentes de Tesla para uso por competidores.

 

Novas técnicas para projeto de edificações reduziram substancialmente os custos com aquecimento e refrigeração, ao basearem-se muito mais em isolamento, ventilação natural e energia solar.

 

O mundo precisa de um esforço concertado para adotar a geração de eletricidade com baixas emanações de carbono, e não mais negociações do tipo "nós contra eles". Todos os países necessitam novas tecnologias de baixo carbono, muitas das quais ainda estão fora do alcance comercial. Negociadores de acordos climáticos devem, portanto, concentrar-se em como cooperar para assegurar que inovações tecnológicas sejam criadas e beneficiem todos os países.

 

Os países precisam inspirar-se em outros casos em que governos, cientistas e indústria uniram-se para produzir grandes mudanças. Por exemplo, o Projeto Manhattan (para produzir a bomba atômica, durante a Segunda Guerra Mundial) e ao assumir como objetivo realizar o primeiro pouso na Lua, o governo americano estabeleceu uma meta notável, um calendário ousado e alocou os recursos financeiros para concretizar os objetivos. Nos dois casos, cientistas e engenheiros cumpriram seus prazos.

 

Na realidade, processos de "mudança tecnológica direcionada", em que objetivos são definidos ousadamente, etapas são identificadas e cronogramas são postos em prática, são muito mais comuns. A revolução em TI que nos deu computadores, smartphones, GPS e muito mais, foi construída sobre uma série de roteiros definidos pela indústria e por governos.

 

O genoma humano foi mapeado mediante esse tipo esforço governamental - que em última instância incorporou o setor privado. Mais recentemente, governo e indústria cooperaram para reduzir os custos do sequenciamento de um genoma individual - de cerca de US$ 100 milhões em 2001, para apenas US$ 1 mil, hoje. Uma meta de enorme redução de custos foi definida, os cientistas começaram a trabalhar e o progresso alvo foi alcançado dentro do cronograma.

 

Mas deixemos de fingir que trata-se de um jogo de pôquer, em vez de um quebra-cabeça científico e tecnológico da mais alta ordem. Precisamos de gente como Elon Musk e Klaus Lackner, precisamos da General Electric, Siemens, Ericsson, Intel, Electricité de France, Huawei, Google, Baidu, Samsung, Apple e outros em laboratórios, usinas de eletricidade e em cidades ao redor do mundo para forjar os avanços tecnológicos que reduzirão as emissões mundiais de CO2.

 

Há um lugar à mesa até mesmo para companhias como ExxonMobil, Chevron, BP, Peabody, Koch Industries e outras gigantes no setor do petróleo e carvão. Se desejam que seus produtos sejam usados no futuro, é melhor torná-los seguros mediante a implantação de tecnologias avançadas de CCS. A questão crucial é que a meta de profunda descarbonização é um trabalho para todos os interessados, entre eles o setor de combustíveis fósseis - e trata-se uma missão em que todos nós precisamos ficar no lado da sobrevivência e do bem-estar humanos. (Tradução de Sergio Blum)

 

Jeffrey D. Sachs é professor de economia e diretor do Instituto Terra, da Columbia University. É também assessor especial do secretário-geral das Nações Unidas no tema das Metas de Desenvolvimento do Milênio. Copyright: Project Syndicate, 2014.

www.project-syndicate.org

 

Fonte: Valor Econômico

 

 

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